Conheça a escola britânica de cerveja

Por: Renato Bonário

04/04/2018 às 23:23hs

Como vocês vão ver a seguir, o povo britânico já gosta de se embriagar faz tempo (muito tempo), historicamente a bebida teve uma importância marcante na cultura e economia britânica.

Os habitantes do velho mundo utilizaram a cerveja de diversas maneiras, que vão desde a nutrição, sustentabilidade da família até a “substituição” da bebida por água. Ou seja, a história da cerveja está atrelada a essa escola cervejeira e não é de se espantar que hoje em dia, segundo descrito no livro Larousse Da Cerveja de Ronaldo Morado, a cerveja seja a bebida alcoólica mais popular do Reino Unido (formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e da República da Irlanda.

Por isso esse é o primeiro de uma série de posts que vamos produzir sobre as escolas cervejeiras. Nesse post vocês vão ver:

  • História da escola cervejeira britânica
  • Países do Reino Unido e a Cerveja
  • Quais as características da escola britânica de cerveja
  • Exemplos de estilos de cerveja da escola britânica

Continue lendo e vamos fazer uma viagem na história da escola cervejeira britânica, explorando um pouco da história da escola britânica de cerveja.

História da escola cervejeira britânica

Alguns fatos históricos nos levam a crer que a construção da escola cervejeira britânica pode ter começado há muito tempo.

Existem vestígios do consumo, nas ilhas britânicas, de uma bebida de cereais e mel que datam de 3000 a.C. Na mesma época, os pictos, habitantes originais da Escócia, faziam cerveja de cevada com ervas como urze, ulmeira, myrica gale, cranberry e uma erva psicotrópica chamada de meimendro.

Outro marco importante ocorreu quando as tropas de Júlio César chegaram à Britânia, no ano de 54 a.C e se depararam com os Celtas que já consumiam largamente cerveja.

E embora não haja registros precisos dando conta da primeira cerveja feita em solo britânico, é certo que os invasores romanos nas ilhas britânicas à falta do vinho sustentaram-se bebendo as cervejas dos conquistados.

Aqui vale ressaltar que a cerveja não era feita com lúpulo ainda sendo assim, as cervejas eram aromatizadas com mel e ervas, como a artemísia. Outro ponto interessante é que não havia um padrão ou receitas exatas como temos hoje em dia, na produção de cervejas o que poderia resultar em experiências cervejeiras no mínimo estranhas, principalmente para uma pessoa (romanos) acostuma ao paladar do vinho.

Mesmo assim, a bebida de forma geral tinha um papel interessante na representação social, por exemplo: a bebida feita com mel e trigo, conhecida como cerevesia, era considerada mais elitizada ou “premium”, por ser mais encorpada e forte. Enquanto a bebida mais comum, leve e menos complexa era chamada de korma ou curmi, era mais voltada para as massas.

Os romanos deixaram a britânia no século 5. Veio, então a invasão dos anglo-saxões, que acabaram se fixando nas ilhas e trouxeram com eles a tradição de consumo de quatro tipos de bebidas: win (vinho), medo (mióde), beor (que provavelmente se refere a outra bebida a base de mel) e ealu (fermentado de grãos), que deu origem à palavra ale.

Mais um salto a frente na linha do tempo nos leva a idade média, onde a Britânia seguiu a tendência europeia ao norte dos alpes no consumo de cerveja. Uma vez que a pureza da água raramente podia ser garantida, a cerveja era a bebida alcoólica mais consumida para matar a sede e alimentar. Nesse ponto eu não posso resistir ao trocadilho: “Bebiam cerveja igual água!” rsrsr.

A mulher teve um papel extremamente importante na construção da cultura cervejeira da idade média. Fora dos mosteiros, as atividades de produção de pão e cerveja eram exclusivamente femininas, as chamadas “alewifes” ou esposas cervejeiras.

Inicialmente a produção de cerveja era somente para consumo familiar, mas com o tempo e com a fama de boas cervejas, essa passou a ser uma atividade econômica importante para o sustento da família sobretudo quando se tratava de uma viúva.

Não demorou muito para começarem a surgir casas especializadas no comércio de cervejas, as “alehouses” que se tornaram pontos de encontro e logo ficaram conhecidas como public houses, ou “pubs” que ofereciam comida, bebida e acomodações.

O sucesso dos pubs acarretaram na formação de guildas que se reuniram para montar cervejarias mais organizadas e com um produto de melhor qualidade. Esse foi um ato de “virada de chave” porque marcou o ponto onde a arte de se fazer cerveja passou a ser de domínio masculino.

A partir do século XVI (16) o lúpulo já aparece nas cervejas os Britânicas, no entanto ainda havia uma distinção entre cervejas feitas com gruit e frutas na aromatização, chamadas de ale, e as cervejas lupuladas, beer.

As raízes dos estilos ingleses modernos datam do século XVI (16) e XVII (17). As ales não lupuladas foram ganhando a adição de lúpulo, por influência de imigrantes holandeses. Mesmo em pequenas quantidades, o lúpulo oferecia estabilidade à cerveja, permitindo sua guarda e envelhecimento por mais tempo.

No século XVIII (18), Londres era o centro de produção de cervejas e possuía 194 cervejarias que produziam juntas 159.080.000 litros (820.000 cada), o dobro das 574 common brewers do interior (138.000 cada). Interessante ressaltar aqui que já no século 18 só a inglaterra tinha em média 768 cervejarias. Hoje, segundo (MORADO, 2017) a indústria cervejeira britânica conta com mais de 1.400 cervejarias.

A exportação teve um papel importante para a cerveja inglesa. No século XVI, a Inglaterra exportava suas cervejas lupuladas amber ou brown ales para vários países. Alguns fatores ajudaram nessa atividade, por exemplo o custo de exportação era baixo e os navios precisavam de lastros (barris de cerveja) para estabilidade.

A era da exportação trouxe inovação para a cerveja, visto que o líquido precisava permanecer muito tempo nos navios, sem estragar, foi necessário criar uma receita com características de guarda melhores. Foi exatamente o que fez, George Hodgson em londres (1750 a 1820) ao criar a fórmula da India Pale Ale (IPA).

Outro marco na escola cervejeira britânica foi Burton (1820 a 1900), na região central da Inglaterra, conhecida pela produção de cervejas fortes, doces e escuras. Por ser uma região onde a água era muito dura, ou seja possui muitos sais.

Em meados de 1900 a 1985, o consumo de álcool era mal visto pela sociedade inglesa, e como se já não fosse ruim, uma série de acontecimentos influenciou diretamente na cultura cervejeira: a lei seca nos EUA e Canadá e o racionamento e estocagem de energia e ingredientes durante as duas grandes guerras.

Mas nem tudo estava perdido, no século XX (20) a cerveja começou a ser servida a partir de recipientes pressurizados (chope). E a carbonatação artificial foi introduzida no Reino Unido.

Hoje em dia cada parte do Reino Unido se comporta de uma maneira quando se trata de beber ou degustar a cerveja.

 

Belhaven Scottich ale estilo de cerveja da escola cervejeira britânica

Países do Reino Unido e a Cerveja

Inglaterra

Segundo aponta Ronaldo Morado os ingleses são muito orgulhosos de sua tradição cervejeira, o que é justificável. Fiéis à família das cervejas Ale, nem mesmo a palavra beer é bem aceita ou compreendida no país. Para muitos ingleses, cerveja é Ale ou mesmo Bitter.

O consumo da cerveja na Inglaterra ainda é uma prática bem semelhante a relatada na idade média, onde as pessoas iam até os pubs para beber, jogar conversa fora e comer uma boa comida.

Escócia

“A Escócia, sempre foi um dos maiores produtores de malte de cevada do mundo, utilizando-o tanto para a produção de uísque como para a cerveja. Também possui fontes de água de excelente qualidade cuja composição mineral é ideal para a produção das IPA. Na Escócia surgiram as Scottish Ale, servidas em um copo típico chamado de thistle, cujo formato lembra a flor de mesmo nome, símbolo do país.” (MURADO, 2017)

Irlanda do Norte

“Em Belfast, capital da Irlanda do Norte, também acontecem festivais de música e cerveja associados ao movimento CAMRA, pela autêntica Ale, que atraem muitos turistas de todo o mundo.” (MURADO, 2017)

República da Irlanda

“É comum ouvir que a Irlanda é a Guinness e a Guinness é a Irlanda. Mas não é só de Guinness que vive aquele país. São também no país outras boas cervejas, nos estilos Light Lager, Stout e Red Ale, por exemplo. Dependente da importação de cervejas inglesas, só se tornou personagem marcante da história cervejeira no final do século XVIII (18), quando Arthur Guinness (1725 – 1803) iniciou a produção de sua famosa cerveja em Dublin, capital do País.” (MURADO, 2017)

 

Quais as características da escola britânica de cerveja

Para começar a explorar um pouco sobre as características dessa escola, vamos usar o guia de estilos BJCP 2015.

  • Baixe o BJCP 2015 em pdf, traduzido para Português aqui
  • Baixe o app para apple do BJCP 2015 em inglês aqui
  • Baixe o app para android do BJCP 2015 em português aqui

A escola cervejeira britânica é conhecida pelas cervejas lupuladas, complexas e aromáticas (não tanto quanto as Belgas, mas isso fica para outro post rsrs). Normalmente são cervejas bem balanceadas e além dessas qualidades, um outro ponto marcante dessa escola é a menor ocorrência de  carbonatação.

Veja alguns estilos que podem ser encontrados no BJCP 2015:

  • Ordinary Bitter (BJCP 2015 – pág: 38): A baixa densidade, baixo nível de álcool e baixa carbonatação fazem com que essa seja uma cerveja de sessão, fácil de beber.
  • Best Bitter (BJCP 2015 – pág: 38): Uma cerveja de sessão cheia de sabor, e ainda refrescante.
  • Strong Bitter  (BJCP 2015 – pág: 39): Uma cerveja de perfil amargo, de intensidade moderada a forte.
  • British Golden Ale (BJCP 2015 – pág: 45): Uma bitter clara orientada ao lúpulo, de intensidade moderada a forte.
  • English IPA (BJCP 2015 – pág: 43): Uma ale britânica clara, lupulada, moderadamente forte, bem atenuada com um final seco e um aroma e sabor de lúpulo.
  • Dark Mild (BJCP 2015 – pág: 45): É uma ale de sessão britânica, escura de baixa gravidade, com foco no malte, adaptada facilmente para beber em quantidade.
  • English Porter (BJCP 2015 – pág: 47): Chamada simplesmente de “Porter” na Grã Bretanha, o nome “English Porter” é utilizado para diferenciá-la de outras porters presentes no guia BJCP 2015. Essa é uma cerveja marrom de intensidade moderada, com caráter restrito torrado e amargo.
  • Scottish Light (BJCP 2015 – pág: 49): É uma cerveja focada no malte, geralmente caramelizado, e às vezes alguns ésteres. O lúpulo é utilizado nesse estilo apenas para equilibrar e dar sustentação ao malte.
  • Irish Red Ale (BJCP 2015 – pág: 51): Um pint de cerveja fácil, muitas vezes com sabores sutis. Ligeiramente maltada no balanço, às vezes apresenta suave dulçor inicial de caramelo/toffee, um paladar com notas de biscoito e grãos e um toque de secura tostada no final.
  • Irish Stout (BJCP 2015 – pág: 52): Uma cerveja preta com um sabor tostado pronunciado, muitas vezes semelhantes ao café.
  • Sweet Stout (BJCP 2015 – pág: 55): Uma ale muito escura, doce, encorpada, ligeiramente tostada.
  • Oatmeal Stout (BJCP 2015 – pág: 56): Uma ale maltada, tostada, muito escura e encorpada com sabor de aveia complementar.
  • British Strong Ale (BJCP 2015 – pág: 59): Uma cerveja de teor alcoólico respeitável, tradicionalmente acondicionada em garrafas, para guarda, em adega.
  • English Barleywine (BJCP 2015 – pág: 62): Uma vitrine de riqueza e complexidade maltada, com sabores intensos. Muito elevada em corpo beirando a ser mastigável, com calor alcoólico e um agradável frutado ou lupulado interessante.

 

Extra especial bitter pertencente a escola cervejeira britânica

 

Vou parando por aqui, veja mais estilos no guia BJCP. Como você pode ver existem muitas variações de estilos dentro da escola cervejeira britânica. Mesmo que eles tenham um perfil cultural mais conservador é possível que haja ainda mais variações de estilos dessas cervejas pelo mundo, considerando a capacidade de inovação, acesso a insumos, costumes e gostos culturais de vários povos.

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