Escola cervejeira Alemã

Por: Renato Bonário

28/06/2018 às 12:15hs

As escolas cervejeiras influenciam diretamente a cultura da cerveja pelo mundo todo com tradições, histórias, ingredientes e receitas características de cada uma delas. Atualmente temos quatro escolas, Americana, Britânica ou inglesa, Belga e Germânica ou Alemã.

Nesse artigo você vai conhecer mais sobre a História, Estilos Característicos e Países da Escola Cervejeira Alemã ou Escola Germânica, que é composta pelos países Alemanha, República Tcheca ou Tchéquia (Boêmia), Eslováquia, Áustria, Holanda e Polônia.

Países que compõem a escola cervejeira alemã
Países que compõem a escola cervejeira alemã

 

Índice

História da escola cervejeira alemã

A história da cerveja que influencia a Escola Alemã data da era do Império Romano, naquela época o vinho era a principal bebida do império romano, servido aos nobres. Já cerveja era vista como uma bebida popular, destinada aos mais pobres e aos povos bárbaros.  

No entanto para alguns povos da região germânica, como Trácios e Celtas, a cerveja era considerada uma bebida sagrada, e acredita-se que devido a movimentos migratórios essa cultura de devoção acabou influenciando alguns povos da região.

Quem nunca viu um desenho de Asterix e Obelix, onde o druida cria a “poção mágica” que dá poderes aos herois em um caldeirão parecido com uma panela utilizada para fazer cerveja. Enquanto os Romanos tomam o vinho e diga-se de passagem, perdem todas as batalhas …rsrsrsr.

Brincadeiras a parte, pode-se notar que existia uma política econômica e social envolvida no consumo de cerveja. No entanto, mesmo com a imposição da cultura romana, alguns povos germânicos, Ilhas Britânicas, Alemanha e Bélgica mantiveram a cerveja como bebida tradicional.

 

Reinheitsgebot, lei da pureza da cerveja

Na era da renascença, o consumo excessivo de cerveja era muito popular entre as famílias, até mesmo no café da manhã. A bebida era considerada parte da alimentação, podendo até mesmo servir de suporte durante o inverno.

Tempos depois, essa popularização da cerveja acarretou na necessidade de regulamentação da produção em forma de medidas relacionadas a qualidade e na forma de impostos para o governo.

Foi durante esse período que surgiu a famosa Reinheitsgebot, lei da pureza da cerveja, conhecida ainda hoje como uma das contribuições mais relevantes da escola alemã em termos de rigor técnico aplicado na produção de cerveja.

Essa lei, estabelecia regras e limites rigorosos para a produção e comercialização da cerveja, como por exemplo a padronização de preços e a padronização da produção que só poderia usar como ingredientes água, cevada e lúpulo.

Uma curiosidade interessante é que a levedura não era mencionada porque na época não havia conhecimento sobre microbiologia e a fermentação era considerada uma dádiva de deus.

A lei foi considerada um ponto de virada na história da cerveja porque rejeitava bebidas que utilizavam ingredientes como trigo, arroz, milho e diversas outras ervas e adjuntos na produção da cerveja.

Ainda hoje a cultura cervejeira alemã é muito influenciada pelo estabelecimento dessa lei, sendo considerada como uma escola cervejeira conservadora.

Reinheitsgebot, lei da pureza Alemã

Reinheitsgebot, a lei da pureza da cerveja

Estilos Característicos de cerveja

Mesmo com o estabelecimento de regras rigorosas de produção, as técnicas, receitas e características das cervejas dessa escola evoluíram e os germânicos criaram diversos estilos de cerveja, com personalidades marcante, geralmente menos amargas e mais maltadas.

Entre esses estilos, existem vários que são consumidos no mundo todo, garimpei 12 desses estilos diretamente do BJCP para te mostrar, dá uma olhada ai:

 

pilsnerPilsner

É o estilo de cerveja mais consumido no mundo e curiosamente, não é de origem alemã, esse estilo foi criado na cidade de Plzeñ, na Boêmia, República Tcheca ou Tchéquia. Essa é uma cerveja com muito caráter de malte e lúpulo, mesmo assim é bem equilibrada, refrescante.

Pode-se dizer que possui um sabor maltado, com notas de pão, acompanhado de um amargor pronunciado, mas suave, o que confere a essa cerveja um equilíbrio que agrada o paladar. Você pode encontrar notas florais, condimentadas e até mesmo picantes nessa cerveja.

Na aparência, ela encanta pela cor dourada, translúcida, nítida e cristalina. Com essa descrição, não é difícil imaginar aquela praia, o calor de 40° e a cervejinha extremamente gelada, suando em cima da mesa. Possui um IBU, ou índice de amargor, entre 30 e 45 e um teor alcoólico que fica entre 4,2 e 5,8%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Camembert, Minas padrão, Ricota entre outros. Amendoim, Batata frita, Hambúrguer, Salpicão, Salada de folhas, Camarão frito, Peixe frito, Pizza, Frango assado e frito, Arroz e feijão, Lombo de porco entre outras coisas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Weissbier

Cerveja de trigo clara e refrescante, com alta carbonatação, final seco, sensação de boca cremosa, com notas de banana e cravo provenientes da levedura. Os sabores provenientes do lúpulo não são muito aparentes nesse estilo, esse efeito pode até conferir a ele uma percepção de dulçor.

Esse estilo normalmente é encontrado nas cores amarelo palha ou dourado e tem como característica a formação de espuma muito espessa lembrando um mousse, e duradoura. Possui um IBU, ou índice de amargor, entre 8 e 15 e um teor alcoólico que fica entre 4,3 e 5,6%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Camembert, Emmenthal, Gruyére, Mozarela, Ricota, Arroz e feijão, Linguiça de porco, Salsicha de porco, Frango assado entre outras guloseimas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Weizenbock

Uma ale com base em trigo que é forte, maltada e com notas frutadas. Essa cerveja pode apresentar no sabor notas de pão, trigo e grãos bem significativos e até mesmo um dulçor fazendo referência ao caramelo. Existem versões dessa cerveja clara, onde a cor fica entre o ligeiramente dourada e o âmbar, já nas versões escuras um tom âmbar escuro ou marrom-rubi. Normalmente com espuma muito espessa, cremosa e de longa duração.

Normalmente essa cerveja tem um IBU, ou índice de amargor, entre 15 e 30 e um teor alcoólico que fica entre 6,5 e 9,0%. 

Harmoniza bem com: Queijo  prato, Lombo defumado, Salsicha de porco, Linguiça de porco, Frango assado entre outras coisas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Dunkles Bock

Uma lager alemã de perfil maltado, escura e forte. Possui um sabor maltado rico e complexo. Nesse estilo o lúpulo aparece suficientemente para balancear o malte. Mesmo sendo uma cerveja escura não possui sabor característico de torrado ou queimado.

Sua aparência pode variar entre as cores cobre suave e marrom, mesmo sendo de cor escura conserva uma limpidez vinda do tipo de fermentação lager. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 18 e 30 e um teor alcoólico que fica entre 4,7 e 5,5%.

Harmoniza bem com: Queijos – Canastra, Cheddar, Coalho, Gorgonzola, Gouda entre outros.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Märzen

Uma amber lager maltada, com sabor de malte que muitas vezes sugere um dulçor, com notas de pão, tostado com um final seco. O sabor do lúpulo tem a função mais de balanceamento.

Na aparência, esse estilo pode ser apresentado entre as cores âmbar alaranjado e cobre avermelhado, é uma cerveja transparente e cristalina com a espuma em tom marfim. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 18 e 24 e um teor alcoólico que fica entre 5,8 e 6,3%.

Harmoniza bem com: Amendoim, Batata frita, Castanha de caju, Casquinha de siri, Acarajé, Hambúrguer, Salsicha de porco, Salada de folhas, Salpicão, Pizza, Frango assado, Frango Frito, Lombo de porco, Churrasco, vatapá entre outras coisas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Munich Dunkel

Caracterizada pela intensidade, riqueza e complexidade dos maltes Munich mais escuros. Podem ser encontrados sabores de intensos de casca de pão e também sabores suaves de nozes ou de caramelo. Você pode encontrar essa cerveja em cores que variam entre o cobre profundo e o marrom escuro. Ela possui uma espuma cremosa.

Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 18 e 28 e um teor alcoólico que fica entre 4,5 e 5,6%.

Harmoniza bem com: Queijos – Canastra, Gruyére, Prato entre outros. Amêndoa, Casquinha de siri, Acarajé, Salsicha de porco, Atum, Peixe frito, Lagosta, Sardinha, Lasanha, Linguiça de frango, Lombo de porco entre outras coisas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Schwarzbier

É uma lager alemã escura que balanceia os sabores torrados, mas suaves de malte, com um moderado amargor do lúpulo. O corpo leve, a secura e a ausência de aspereza, queimado ou de um retrogosto pesado contribuem para que esta cerveja muito fácil de beber.

Sua aparência pode variar entre as cores marrom médio e marrom escuro, a espuma é bege clara ou bronzeada, volumosa e persistente. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 20 e 30 e um teor alcoólico que fica entre 4,4 e 5,4%.

Harmoniza bem com: Amêndoa, Casquinha de siri, Acarajé, Salsicha de porco, Atum, Truta, Peixe frito, Lagosta, Lula, Sardinha, Massas com molho de tomate, molho branco ou molho pesto, lasanha, Peru, Chester, Linguiça de frango, Lombo de porco, Bife de boi, Rosbife entre outras coisas.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Rauchbier

Uma amber lager alemã com caráter defumado de madeira de faia equilibrado. Isso mesmo, pode parecer estranho, mas lembra um aroma e sabor de bacon.

Esse estilo pode ser apresentar cores que permeiam entre âmbar acobreado e marrom. Sua espuma é cremosa e volumosa. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 20 e 30 e um teor alcoólico que fica entre 4,8 e 6,0%.

Harmoniza bem com: Queijo prato. Sardinha, Lombo defumado, Linguiça de porco, Chouriço.    

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Munich Helles

É uma lager, maltada, com sabor de grãos doces e um final suave e seco. O lúpulo pode acrescentar de forma sutil perfis condimentados, florais ou herbais e geralmente servem para balancear o malte.

Esse estilo pode ser apresentar cores que permeiam entre amarelo médio e palha, é límpida e possui uma espuma branca, cremosa e persistente. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 16 e 22 e um teor alcoólico que fica entre 4,7 e 5,4%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Emmenthal e Ricota.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Vienna Lager

Essa é uma amber lager de intensidade moderada com malte suave, afável, com amargor moderado e um final seco. O sabor de malte é limpo, rico em notas de pão e levemente tostado.

Esse estilo pode ser apresentar cores que permeiam entre o âmbar e o cobre claro. É cristalina e brilhante com espuma volumosa, persistente de tom marfim. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 16 e 22 e um teor alcoólico que fica entre 4,7 e 5,4%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Camembert, Minas frescal e Gouda. Amendoim, Batata frita, Castanha de caju, Acarajé, Salsicha de porco, Hambúrguer, Salada de folhas, Salpicão, Peixe frito, Pizza, Frango assado, Peru, Chester, Linguiça de frango entre outros.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Kölsch

Uma cerveja refrescante que normalmente possui notas sutis de frutado lúpulo. O sabor equilibrado de malte suave, ainda que atenuado, com dulçor frutado quase imperceptível da fermentação, amargor médio-baixo, com uma secura delicada e ligeiramente rugosa no final.

Esse estilo pode ser apresentar cores que permeiam entre o dourado muito claro e o dourado. Possui uma delicada espuma branca que pode não persistir. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amar

gor, entre 18 e 30 e um teor alcoólico que fica entre 4,4 e 5,2%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Camembert, Gruyère e Ricota. Pão francês, Batata frita, Salsicha de porco, Salada de folhas, Salpicão, Peixe frito, Frango frito, Linguiça de porco.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Altbier

Uma cerveja bem balanceada, bem atenuada, amarga, mas também maltada. O amargor é equilibrado pela riqueza de malte. É uma cerveja de sabor complexo que pode apresentar, mesmo que em baixas concentrações, notas sutis de picante e floral vindas do lúpulo, além de frutados provenientes de fermentação e grãos de malte.

Esse estilo pode ser apresentar cores que permeiam entre o âmbar claro e cobre profundo. É cristalina e brilhante de espuma marfim, espessa, cremosa e de longa duração. Segundo o guia de estilos BJCP, essa cerveja deve ter um IBU, ou índice de amargor, entre 25 e 50 e um teor alcoólico que fica entre 4,3 e 5,5%.

Harmoniza bem com: Queijos – Brie, Camembert, Minas frescal e Minas padrão. Pão francês, Batata frita, Salsicha de porco, Massa com molho de tomate, Lasanha, Frango frito, Chouriço, Churrasco.

Conheça alguns exemplos comerciais:

 

Alguns países que compõem a escola cervejeira Alemã

A Alemanha

Mapa da AlemanhaOs alemães são tão ligados a cultura cervejeira que não é estranho encontrar pelo menos uma cervejaria em cada cidade, vila ou bairro. Mais de 5 mil marcas de cerveja são produzidas no país que possui aproximadamente 1.300 cervejarias, das quais 90% são independentes e oferecem diferentes estilos de cerveja.

Hoje a Alemanha é o quarto maior produtor de cerveja do mundo, consumindo internamente 85% de toda a produção. O consumo per capta de cerveja no país é de mais de 100 litros por ano.

Um traço interessante do povo alemão é que qualquer evento, por menor ou maior que seja, simples, casual ou cerimonial, é acompanhado de cerveja. E não pense que a mais popular seja uma Pilsner; o comum é pedir por uma Helles.

Falando em eventos, o país possui as festas Fastnacht (mais ao sul), Karneval (mais ao norte) e a famosa Oltoberfest que dura 16 dias, acho que dá até para ficar bêbado não dá?! auhauha

Oltoberfest na Alemanha
Oltoberfest na Alemanha

 

República Tcheca ou Tchéquia

Mapa da República TchecaO povo tcheco tem muito orgulho de suas origens cervejeiras. E com razão, pois existem registros de que o lúpulo começou a ser usado na fabricação de cerveja ali, na região da Boêmia, já no séc. VII. Também na região da Boêmia surgiu o estilo mais popular do mundo, a Pilsner, em 1842, na cidade de Plzeň.

Esse orgulho todo também se reflete no consumo da cerveja, mesmo que o país não seja um dos maiores produtores de cerveja do mundo, o povo tcheco compensa isso bebendo bem!! Eles detém a liderança no consumo per capita que chega a mais de 140 litros per capita/ano.

Um curiosidade interessante é que a tradição de beber chope em copos de meio litro. Mais da metade do consumo da bebida na República Tcheca ou Tchéquia acontece em bares através de barris (chope), 40% em garrafas e somente 4% em latas e é aí que está a curiosidade os tchecos rejeitam as latinhas, que são consumidas somente pelos turistas.

Como bom povo germânico, eles também possuem suas preciosidades da cultura cervejeira, uma delas é o U Fleku, um dos bares mais antigos do mundo que data de 1499 e é um símbolo de Praga.

Outra contribuição de peso para a cultura cervejeira é o Ceský Pivní Festival (Festival de Cerveja Tcheco) que acontece em maio e dura 17 dias.

Ceský Pivní Festival, na República Tcheca ou Tchéquia
Ceský Pivní Festival, na República Tcheca ou Tchéquia

 

Vou ficando por aqui, mas acredito que deu para conhecer um pouco sobre essa escola tão significativa para a cultura cervejeira. Podemos ver que mesmo sendo conservadores e rigorosos, os germânicos conseguiram elaborar diversos estilos de cerveja com características diferentes. Vale a pena experimentar!

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Referências: